Who is Mugabe?

Antes do início da Copa de 2010, a
seleção brasileira fez dois amistosos, contra Zimbábue e Tanzânia.
Eu trabalhava na Folha de S. Paulo nessa época e ficou decidido que
metade da equipe do jornal (jornalistas e fotógrafos) viajariam para
cada um desses países. Assim, o fotógrafo Eduardo Knapp iria para a
Tanzânia e eu viajaria para o Zimbábue.

Chegamos no Zimbábue um dia antes do
jogo. O desembarque da seleção foi um caos, com torcedores fazendo
muita festa, apesar de não terem conseguido ver nenhum dos jogadores
brasileiros: a delegação saiu do avião direto para um ônibus que
já os esperava na pista do aeroporto. Aliás, essa era uma das
marcas registradas do técnico Dunga: muitos treinos fechados e
pouquíssimo acesso aos jogadores. Mas isso é história para um
próximo post…

No dia seguinte, enquanto eu me
preparava no hotel para sair para o estádio, recebi a informação
que o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, entraria no campo antes
do jogo e que era importantíssimo que eu fizesse uma foto dele.
“Tranquilo”, pensei. “Ele deve dar o pontapé inicial do jogo e
cumprimentar os jogadores, como sempre fazem nessas ocasiões. Sem
problemas”.

No caminho para o estádio notei a
presença de muitos soldados armados nas ruas. Como havíamos chegado
na noite passada, não tinha observado isso. As ruas eram bem escuras
e saímos do aeroporto direto pro hotel. Eu ainda tinha vindo no táxi
editando as fotos do desembarque, cheguei no quarto e “capotei”.

Ao chegar no campo, mais soldados.
Aliás, MUITOS soldados. Todos com rifles, fuzis ou metralhadoras:
segurança super reforçada. Ali tive a sensação que eu tinha
cometido um grande erro: estava num país longe de casa e não
conhecia um pingo da história daquele lugar. Desde que eu soube que
iria para a Copa, me atentei a saber tudo sobre o Mundial, seleções,
atletas, técnicos, estádios, caminhos, etc. Já havia estado na
África do Sul no ano anterior, então conhecia bem o país. Mas a
respeito do Zimbábue eu não sabia NADA.

Conversei com um repórter brasileiro
que estava no gramado que me explicou um pouco da situação.
Resumindo: o Zimbábue vivia uma ditadura há vários anos e o
presidente, Roberto Mugabe, que já ia para mais de 30 anos no poder
era acusado de ser, entre outras coisas, um genocida. “É melhor
eu caprichar nessa foto”, pensei.

Fiquei aguardando a entrada do
presidente. De repente, anunciaram a presença dele nos
auto-falantes. Aí entraram no gramado cerca de 30 homens de terno
preto, todos afro-descendentes, caminhando numa espécie de volta
olímpica. Lembrei de outro detalhe: eu não fazia ideia da cara do
sujeito. Me bateu um desespero. “E agora??”

A comitiva vinha se aproximando. Corri
em direção a um dos guardas de fuzil: “Who is Mugabe? Who is
Mugabe?”

O cara só balançava a cabeça. E eu
de novo: “Who is Mugabe, man? Tell me, please!”

A resposta dele veio baixinho: “I can
not tell who he is. I can not even point my finger at him”.

(Eu não posso dizer quem ele é. Muito menos posso apontar meu dedo em direção à ele.)

O grupo de pessoas já estava quase do
meu lado. Fui em direção a eles, câmera com uma lente 70-200mm em
punho. “Vou tentar chegar o mais próximo possível. Ele deve estar
bem no meio, cercado pelos seguranças”. Tromba daqui, tromba dali,
um segurança empurra de cá, o outro me esbarra de lá, um guarda com
fuzil manda eu me afastar, até que lá no meio da roda estava um
senhorzinho baixinho, de óculos, com seu terno preto e agitando uma
bandeirinha do Zimbábue: “Só pode ser esse!”

Fiz umas 7 fotos, meio sub-expostas,
meio na sombra, velocidade do obturador não muito alta, tanto que a
bandeirinha ficou meio borrada na imagem.

Rapidamente a comitiva saiu do gramado.
Mas e agora? Será que eu tinha fotografado o cara certo?

Procurei um guarda, não me lembro se
era o mesmo com quem eu tinha falado anteriormente. Mostrei a foto no display da câmera pra ele: “This is
Mugabe?”

“Yes, this is Mugabe”.

“Ufa”.

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