Campeão em chamas


Era a final do Campeonato Paulista de
2009. O Corinthians acabara de sagrar-se campeão, batendo o Santos
de Neymar e Ganso. No jogo de ida, na Vila Belmiro, venceu por 3x1.
Já no Pacaembu, as equipes ficaram no 1x1.

Acabado o jogo, chegara a hora de
erguer o troféu. Eu estava fotografando para a Folha de S. Paulo
nessa ocasião. Lembro que sempre fui (e sou até hoje) contra a
“obrigatoriedade” dos jornais de invariavelmente publicarem no
dia seguinte a foto do time campeão levantando a taça. Toda final
de campeonato é a mesma coisa: nove de dez jornais publicam aquela
foto do time erguendo o trofeu.

Tento sempre que possível fugir dessa
imagem. Seja com um ângulo diferente ou com uma lente maior, pra
conseguir uma imagem mais fechada. Trabalhando com uma 400mm, por
exemplo, é possível conseguir um detalhe do capitão levantando o
trofeu: um suor, uma lágrima, o rosto refletindo na taça. Aquela
foto tradicional, de todos os jogadores pulando e erguendo a taça,
de jeito nenhum! rs.

Além disso, normalmente existe um
protocolo para a hora do trofeu: os fotógrafos são forçados pela
organização do torneio a ficar em um “curralzinho”, bem em
frente ao palanque aonde os jogadores recebem o prêmio. Ou seja: na
grande maioria das vezes, todo mundo faz a mesma imagem.

No dia dessa foto, a Federação
Paulista de Futebol usou um guindaste para levantar o capitão do
Corinthians, o jogador Willian, além do Ministro dos Esportes (na
ocasião Orlando Silva) e mais algumas pessoas. A ideia era que, lá
do alto, o atleta levantasse o trofeu. E assim foi feito.

Me recordo que tentei ficar o mais ao
lado possível para tentar fugir do “curral” e buscar um ângulo
diferente. Estava com uma Canon Mark II e uma teleobjetiva 400mm.
Imaginava que daria uma imagem bonita, com o fundo preto da torcida nas arquibancadas do Pacaembu
e o jogador mais iluminado em evidência.

Assim que o ministro passou o trofeu às
mãos do capitão do Corinthians, começou uma chuva de papéis picados,
misturados com um papel que parecia uma serpentina. Além disso, ali
mesmo na plataforma onde estavam, iniciou-se uma pequena queima de
fogos. Pronto: em poucos instantes, havia um incêndio. Lembro de
rapidamente alterar as configurações da câmera (na verdade apenas
aumentei a velocidade do disparo do obturador) e comecei a clicar.
Era uma situação péssima pra qualquer fotógrafo, já que em um local aonde inicialmente não existia luz, de repente tinha se transformado num lugar incandescente e
super iluminado.

Fiz uma sequência de imagens (a de baixo é uma delas) antes do
Willian derrubar a taça, que por sorte caiu dentro do palanque (e
acabou quebrando um dos dedos do pé do atleta) e não desabou lá
pra baixo, onde estavam os demais atletas do time. 

Aí, no dia seguinte me peguei super feliz com a imagem na capa do jornal: quem diria que, enfim, eu iria
gostar de ver uma foto minha de
um jogador levantando a taça de campeão?


Momento de fúria

A foto abaixo foi feita no dia 27 de
março de 2011. São Paulo e Corinthians se enfrentavam na Arena
Barueri. Não sei de outro fotógrafo que tenha feito essa imagem ou
mesmo alguma câmera de TV que tenha captado esse momento. Quem sabe,
depois desse post, eu consiga saber disso. Espero que isso aconteça,
seria bem legal conhecer algum outro autor dessa imagem e conversar a
respeito…

Enfim, esse clássico entre dois times
grandes do futebol de São Paulo tinha um ingrediente a mais, fora
toda a rivalidade entre as duas equipes.

O goleiro do São Paulo, Rogério Ceni,
estava prestes a marcar seu centésimo gol. Assim, em todo jogo do
São Paulo que eu era destacado à cobrir – nessa época eu
trabalhava na Folha de S. Paulo – existia essa expectativa. “Será
que é hoje? Vai ser de falta? De pênalti?”. E o mais importante:
“será que eu terei a foto”?

Cheguei ao estádio por volta das 13
horas. Fui ao campo, organizei meus equipamentos, fui atrás das
escalações e me posicionei no ataque do São Paulo. Em jogos como
esse, com dois times grandes, geralmente fico na mesma posição do
campo durante a partida inteira, assim tenho a oportunidade de
fotografar os ataques das equipes uma vez em cada tempo. Só que essa
era uma ocasião diferente: caso saísse o gol 100, eu teria que
estar lá. Então, lembro que fiquei no ataque do São Paulo o jogo
inteiro.

O jogo foi transcorrendo normalmente.
Dagoberto abriu o placar para o São Paulo ainda no fim do primeiro
tempo. Logo no início da segunda etapa, falta para o São Paulo.
Prontamente Rogério Ceni veio caminhando para fazer a cobrança.
Poderia ser a “hora”.

Eu estava posicionado do lado contrário
dos bancos e a cobrança seria por ali, perto dos reservas. Sempre que acontece algo do tipo, ficamos tentando
adivinhar o que vai acontecer: “Será que, caso faça o gol, ele
vai comemorar pra cá? Ou pra lá?” Impossível saber na verdade.
No caso do Rogério, geralmente fazia os gols e já voltava
correndo para sua meta, para não deixar o gol vazio. Mas essa era
uma situação única. Provavelmente nem ele mesmo sabia o que faria caso marcasse.

A falta batida pelo goleiro do São
Paulo foi perfeita e entrou no ângulo direito do goleiro Júlio
César, do Corinthians. Festa no campo, fogos de artifício,
torcedores loucos nas arquibancadas e Rogério Ceni correndo pra todos
os lados: primeiro para a esquerda, depois para direita, tirou sua
camisa, rodou no ar, até que acabou coberto por todos os jogadores
do São Paulo – mais os reservas – quase na bandeira de escanteio
do outro lado em que eu estava. Sendo bem sincero, após o gol eu
praticamente não vi mais o goleiro. Tentei focalizá-lo com a lente
400mm mas ora algum jogador do São Paulo entrava na frente da imagem
ora um do Corinthians me atrapalhava. Lembro de ficar com raiva,
soltei uns palavrões e tirei o olho do ocular da câmera para tentar
localizá-lo (quando trabalhamos com uma lente dessas, nosso campo de
visão fica restrito a um espaço pequeno, bem fechado nos lances do
jogo). Nesse momento, com a visão mais ampla, percebi que uma camisa do São Paulo foi atirada no campo,
bem ao lado do gol do Corinthians. O goleiro Júlio César – que
estava transtornado em levar o gol – veio caminhando em direção a
camisa e, no embalo, deu-lhe um chute. Fiz dois cliques: em um deles,
cortei totalmente a cabeça do goleiro. O outro, foi esse aí.  

Pensando hoje, ainda fico em dúvida em qual foto eu queria ter feito: aquela do Rogério, vibrando após realizar um feito histórico ou essa do Júlio César. Sei lá se um dia terei essa resposta. Só sei que gosto bastante dessa imagem.


A piscadinha


A piscadinha do Messi pro Neymar

Brasil e Argentina se enfrentariam em
um jogo amistoso nos Estados Unidos. Era a reta final da preparação
da seleção brasileira para as Olimpíadas de Londres. Nessa época
eu trabalhava na Folha de S. Paulo e cobria boa parte dos jogos do
Brasil. Entretanto, nesse jogo específico, o jornal já havia
sinalizado que não levaria nenhum fotógrafo para cobrir a partida.

Sabendo disso, enchi o saco do meu
chefe à época, dizendo que era um jogo muito importante:

- Não podemos ficar de fora desse
jogo! Brasil x Argentina, Messi x Neymar, Adidas x Nike – enumerei.
Disseram que iam pensar, mas que estava difícil. O gasto seria muito
para cobrir um jogo amistoso que na visão deles não valia muita
coisa.

Enfim, decidiram que iam me mandar aos
48 do segundo tempo. Então, bora pra NY.

Chegando lá fiz dois treinos, um de
cada seleção. Eu já havia fotografado Messi duas vezes, no ano
passado por ocasião da Copa América na Argentina e também no
Mundial de Clubes do Japão, onde o Barcelona do argentino venceu o
Santos de Neymar na final. Por conta da ascensão de Neymar (que foi
campeão da Libertadores de 2011) e da sequência de títulos de
Melhor do Mundo da FIFA de Messi, criou-se uma “rivalidade” entre os dois
astros.

Fui com isso na cabeça pro jogo.
Pensando em fazer uma foto que de alguma maneira representasse esse
“duelo”.

Chegando no estádio, fui fazendo o de
praxe: organizei minhas câmeras, deixei pronto o computador para
transmissão das fotos e fiz alguns cliques do aquecimento. Um pouco
antes do início da partida, me posicionei na lateral do campo, na
altura do centro do gramado para fotografar os times posados. Antes
disso, vinha a execução dos hinos das seleções. Foi aí que tive
uma “luz”: “Caramba, vai ser difícil fazer uma foto dos dois
jogadores durante o jogo. Até pelas posições que atuam no campo, a
probabilidade de disputarem uma bola é bem pequena. Então, depois
do hino, quando todos os jogadores se cumprimentarem, pode ser minha
única chance. É isso! Quem sabe se abracem, conversem um pouco, sei
lá”.

Bom, o resultado foi a foto aí de baixo. Sim, foi sorte. Muita sorte. Lembro que quando um se aproximou
do outro, “sentei o dedo”. Devo ter feito umas 10 fotos em
sequência. Estava usando uma 400mm, que fechava bem a cena. Na
posição que eu estava, o quadro era praticamente da altura dos
ombros dos jogadores até o topo da cabeça.

Na hora não vi realmente o que tinha
saído. Levantei rápido de onde estava sentado e fui me direcionando
pra linha de fundo, na minha posição para fotografar o jogo. Quando
cheguei lá, sentei no meu banquinho e comecei a ver o que tinha
conseguido. E comecei a sorrir: afinal de contas, tinha valido a pena ir até os
Estados Unidos fazer aquele “amistoso”.

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