Momento de fúria

A foto abaixo foi feita no dia 27 de
março de 2011. São Paulo e Corinthians se enfrentavam na Arena
Barueri. Não sei de outro fotógrafo que tenha feito essa imagem ou
mesmo alguma câmera de TV que tenha captado esse momento. Quem sabe,
depois desse post, eu consiga saber disso. Espero que isso aconteça,
seria bem legal conhecer algum outro autor dessa imagem e conversar a
respeito…

Enfim, esse clássico entre dois times
grandes do futebol de São Paulo tinha um ingrediente a mais, fora
toda a rivalidade entre as duas equipes.

O goleiro do São Paulo, Rogério Ceni,
estava prestes a marcar seu centésimo gol. Assim, em todo jogo do
São Paulo que eu era destacado à cobrir – nessa época eu
trabalhava na Folha de S. Paulo – existia essa expectativa. “Será
que é hoje? Vai ser de falta? De pênalti?”. E o mais importante:
“será que eu terei a foto”?

Cheguei ao estádio por volta das 13
horas. Fui ao campo, organizei meus equipamentos, fui atrás das
escalações e me posicionei no ataque do São Paulo. Em jogos como
esse, com dois times grandes, geralmente fico na mesma posição do
campo durante a partida inteira, assim tenho a oportunidade de
fotografar os ataques das equipes uma vez em cada tempo. Só que essa
era uma ocasião diferente: caso saísse o gol 100, eu teria que
estar lá. Então, lembro que fiquei no ataque do São Paulo o jogo
inteiro.

O jogo foi transcorrendo normalmente.
Dagoberto abriu o placar para o São Paulo ainda no fim do primeiro
tempo. Logo no início da segunda etapa, falta para o São Paulo.
Prontamente Rogério Ceni veio caminhando para fazer a cobrança.
Poderia ser a “hora”.

Eu estava posicionado do lado contrário
dos bancos e a cobrança seria por ali, perto dos reservas. Sempre que acontece algo do tipo, ficamos tentando
adivinhar o que vai acontecer: “Será que, caso faça o gol, ele
vai comemorar pra cá? Ou pra lá?” Impossível saber na verdade.
No caso do Rogério, geralmente fazia os gols e já voltava
correndo para sua meta, para não deixar o gol vazio. Mas essa era
uma situação única. Provavelmente nem ele mesmo sabia o que faria caso marcasse.

A falta batida pelo goleiro do São
Paulo foi perfeita e entrou no ângulo direito do goleiro Júlio
César, do Corinthians. Festa no campo, fogos de artifício,
torcedores loucos nas arquibancadas e Rogério Ceni correndo pra todos
os lados: primeiro para a esquerda, depois para direita, tirou sua
camisa, rodou no ar, até que acabou coberto por todos os jogadores
do São Paulo – mais os reservas – quase na bandeira de escanteio
do outro lado em que eu estava. Sendo bem sincero, após o gol eu
praticamente não vi mais o goleiro. Tentei focalizá-lo com a lente
400mm mas ora algum jogador do São Paulo entrava na frente da imagem
ora um do Corinthians me atrapalhava. Lembro de ficar com raiva,
soltei uns palavrões e tirei o olho do ocular da câmera para tentar
localizá-lo (quando trabalhamos com uma lente dessas, nosso campo de
visão fica restrito a um espaço pequeno, bem fechado nos lances do
jogo). Nesse momento, com a visão mais ampla, percebi que uma camisa do São Paulo foi atirada no campo,
bem ao lado do gol do Corinthians. O goleiro Júlio César – que
estava transtornado em levar o gol – veio caminhando em direção a
camisa e, no embalo, deu-lhe um chute. Fiz dois cliques: em um deles,
cortei totalmente a cabeça do goleiro. O outro, foi esse aí.  

Pensando hoje, ainda fico em dúvida em qual foto eu queria ter feito: aquela do Rogério, vibrando após realizar um feito histórico ou essa do Júlio César. Sei lá se um dia terei essa resposta. Só sei que gosto bastante dessa imagem.

Copyright © All rights reserved.
Using Format