Na abertura da Copa, nem tudo é futebol

Em 2014 eu fiz a cobertura da Copa do Mundo para a revista Época. Quem já cobriu uma Copa para jornal (como fiz em 2010, para a Folha de S. Paulo) sabe que é um trabalho insano, principalmente se o fotógrafo tem a missão de “colar” na seleção brasileira. São 24 horas de cobertura: treinos, coletivas, plantões no hotel, pautas sobre comportamento, entrevistas exclusivas, enfim. Me lembro que um dos meus dias mais “felizes” na cobertura da Copa da África do Sul foi quando fotografei o avião levando a seleção embora após a eliminação contra a Holanda. É triste, mas é a pura verdade. Eu já nao aguentava mais aquela rotina.

Bom, fiz toda essa introdução pra dizer que em comparação a cobertura da Copa de 2010 pela Folha, trabalhar para uma revista, no caso a revista Época, na Copa de 2014, foi um “sonho”. Como a revista é semanal, meus prazos e deadlines eram super tranquilos. Nada de pressa. Fora que eu ainda podia investir em ensaios, sugerir pautas e me preocupar basicamente em fotografar.

Meu primeiro jogo na Copa foi a partida de abertura entre Brasil x Croácia, numa quinta-feira, na Arena Corinthians. O fechamento da revista seria na sexta-feira então existia uma “pequena pressa” em entregar o material rapidamente, por isso me recordo que trabalhei “cabeado”: um cabo de rede se conectava na minha câmera e o material subia para a revista logo após eu ter fotografado. Tudo que eu tinha que fazer era selecionar as melhores imagens na câmera e liberar para o envio.

Para esse jogo eu recebi alguns briefings do André Sarmento, editor da revista (eu já conhecia o André porque havíamos trabalhado juntos na Folha, então nosso entendimento foi muito fácil durante o Mundial). Além de enviar o material o quanto antes, ele me pediu para ficar atento às tribunas de honra, já que líderes de países do mundo inteiro estariam presentes. Era um ambiente tenso e muito foi falado antes da Copa sobre a questão da segurança, principalmente porque há muitos anos um evento desse porte não era realizado na América Latina.

Acontece que o melhor momento para fotografar a tribuna de lá do campo, de onde eu estava, era quando os personagens estivessem de pé, por conta do ângulo. Quando estivessem sentados a foto não ficaria boa. E qual hora eles ficariam com certeza de pé? Durante a execução dos hinos nacionais. Logo pensei que isso seria um problema, já que o momento do hino seria também a ocasião ideal para fotografar os jogadores cantando, os técnicos mais de perto, etc.

Enfim, fui para a lateral do campo e me posicionei junto ao batalhão de fotógrafos (éramos 250 nesse dia). 

Chegando ali comecei a colocar em prática algo que sempre faço nessas grandes competições: pensar que eu era um privilegiado de estar naquele lugar, que era o sonho de todo fotógrafo esportivo do mundo fotografar uma Copa (eu já ia para minha segunda Copa do Mundo) e que já que eu tinha esse privilégio, não poderia desperdiçar esse momento e “fazer mais do mesmo”. Nesse momento, vale muito o exercício de olhar para onde ninguém está olhando. Quase sempre vale a pena.

Contextualizando um pouco, naquele período o país estava (como ainda está) muito dividido politicamente. Era o último ano da presidenta Dilma Roussef e as campanhas políticas estavam a todo vapor. Então era muito provável que essa tensão se refletisse no estádio e principalmente porque Dilma faria um pronunciamento antes da partida, declarando aberto o Mundial.

Dito e feito: a presidenta levou uma sonora vaia durante sua fala. Lembro de fazer algumas fotos do seu discurso e voltei meus olhos para o campo, onde os dois times já iam entrando para todo o protocolo de início da partida. 

Começada a execução dos hinos, fiz alguns cliques dos atletas e me lembrei do “olhe para onde ninguém está olhando”. Foi aí que virei a 400mm de novo para as tribunas. E essa cena aí abaixo ocorreu. Me lembro que não foi muito rápido: Dilma ficou um tempo fazendo esse gesto. E também por um tempo ficou olhando na minha direção. Não sei se ela achou curioso eu estar apontando a câmera para ela enquanto a maioria dos fotógrafos mirava o campo ou se simplesmente tive sorte. 

Gosto bastante dessa foto porque, depois de um tempo, revendo essa imagem, acredito que ela ficou até melhor, já que naquele ano Dilma foi reeleita numa disputa acirrada com Aécio Neves e alguns meses depois ocorreu o Golpe (ou Impeatchment, chame como bem entender) que teve grande participação de Michel Temer (abaixo na foto), seu vice-presidente.

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