A foto da taça da Copa


A foto da taça da Copa

Já falei por aqui que comemoração de
final de campeonato é uma das coisas mais “engessadas” e sem
graça de fotografar. Os fotógrafos são obrigados a ficar em uma
área definida pela organização do evento e acaba todo mundo
fazendo a mesma foto.

Final da Copa não é diferente. Montam
“um palquinho”, todo mundo se aboleta lá e briga pela mesma
imagem.

Pensando nisso, na premiação da final
do mundial minha ideia era me posicionar num espaço mais ao lado e
optar por uma lente diferente da maioria: a 600mm 4.0, que usei
praticamente na Copa inteira. Esse era o plano. O problema é que na
maioria das vezes, imprevistos acontecem…

Enfim, fim de jogo, França campeã,
bora fazer a foto. Antes de sair da posição que eu estava durante a
partida, guardei todos meus equipamentos nas mochilas porque a chuva,
que prometeu aparecer durante a tarde toda, agora provavelmente viria
mesmo.

Dei a volta no campo e cheguei no local
designado aos fotógrafos na lateral do gramado, bem na linha do meio
de campo, entre os dois bancos de reservas. Obviamente, todos os
espaços já estavam ocupados. Me posicionei um pouco mais à
esquerda e comecei a esperar pela entrada da taça.

Depois de alguns minutos, a chuva veio.
E veio forte, torrencial mesmo. Naquele momento me dei conta que
estava sem capa de chuva: nem pra mim, nem para o equipamento.

A chuva não dava trégua. Pensei em
sair de onde estava, tentar me abrigar em algum lugar, mas corria
risco de perder a posição. Mesmo mais afastado, já haviam alguns
fotógrafos atrás de mim. Começava a bater o desespero: equipamento
ensopado, sem nenhuma proteção. Na realidade poucos fotógrafos
estavam preparados para aquele dilúvio. Olhei para o “palquinho”
e vi fotógrafos que não conseguiriam se mexer nem se quisessem:
estavam todos encurralados.

A organização estava demorando muito
para trazer a taça, já estávamos esperando mais de 20 minutos e
nada. Em determinado momento, desencanei. Não iria mais deixar
minhas câmeras e lentes naquele aguaceiro. Corri e me abriguei em um
dos bancos de reservas. Quando a taça viesse eu correria novamente
para a posição onde estava e tentaria contar com a sorte. Além do
equipamento que estava comigo, eu também não conseguia parar de
pensar no restante que deixei do outro lado do campo: “Será que
fechei direito minha mochila? Meu computador estaria seguro? Do que
adiantaria fazer as fotos se eu não tivesse meu computador
funcionando para transmitir o material?”

Depois de mais alguns minutos,
finalmente trouxeram a Copa do Mundo. O presidente Putin também
apareceu. Lembro dele entrando porque um dos poucos fiscais da Fifa
que possuía um guarda-chuva estava bem na minha frente. Lógico que
assim que o presidente entrou no gramado o fiscal perdeu seu
guarda-chuva…

Corri para onde eu estava
anteriormente. Muita chuva ainda. “Meu lugar” já não estava
mais lá, claro. Fiquei atrás de alguns fotógrafos, mas como estava
com a 600mm, mesmo com a visão um pouco encoberta, ainda conseguia
enxergar o local aonde entregariam a taça para o capitão da França,
o goleiro Hugo Lloris.

Pronto: taça nas mãos do goleiro,
papel picado, chuva. Muito difícil fazer o foco: a lente estava
cheia de pingos de água, os papéis apareciam na frente e atrás da
taça. O autofocus da câmera ia e voltava. Eu só via mãos: com a
600mm estava bem fechado, o quadro da câmera ia da altura do peito
dos jogadores até o final dos braços, onde a taça começava a ser
passada de mãos em mãos.

Fui clicando, clicando, clicando. Nessa
hora, a experiência conta muito. Tem de tentar manter a calma,
respirar e clicar. E rezar, rs.

Fiquei ali naquela cena um minuto no
máximo. Foi o tempo dos jogadores levantarem o trofeu a aos poucos
irem iniciando a volta olímpica. Se me perguntarem o que aconteceu
depois disso, sinceramente não sei dizer. Não tenho nenhuma foto da
festa pós entrega da taça. Saí correndo para buscar minhas coisas.
Só conseguia imaginar meu computador e o resto do meu equipamento
ensopados! No caminho até chegar onde havia deixado meus pertences
vi cenas bizarras: fotógrafos que haviam deixados os notebooks e
mochilas abertos durante todo o tempo da chuva, tentando em vão
“secar” teclados, trackpads, lentes, câmeras. Desesperador.

Peguei tudo, entrei na sala de imprensa
do estádio e comecei a editar minhas fotos: meu computador estava
intacto!

Como disse, minhas fotos só tinham
mãos, chuva e papéis picados. Quando no frame havia um rosto
levantando a taça, das duas uma: ou não tinha foco ou a composição
não era boa.

Foi aí que me lembrei de um Stories
que havia gravado um pouco antes da final, em que eu dizia
basicamente que estar numa final de Copa era um privilégio tão
grande, mas tão grande, que não valia a pena estar ali e não fazer
algo diferente, arriscar. Eu já havia arriscado com o equipamento,
com o posicionamento. Por que não arriscar na edição? Nesse
momento surgiu a ideia de cropar a imagem de uma maneira que só
apareceriam as mãos dos atletas e a taça. E foi o que fiz, como
vocês podem ver na imagem abaixo.

Gostei da imagem: era diferente,
representativa e bonita plasticamente.

E no fim das contas, a chuva que tanto
havia atrapalhado, fez com que a foto ficasse até mais legal, junto
com a luz e o reflexo dos papeis picados dourados.

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