Holandês voador

Na último texto do “Por Trás da Foto”, falei um pouco como é a cobertura de uma Copa do Mundo quando o fotógrafo tem de ficar “colado” em uma só seleção: são 24 horas ligado para não perder algo. Além dos treinos e jogos, temos de fazer plantão no hotel onde a equipe está hospedada e eventualmente fotografar alguma entrevista exclusiva, além de acompanhar os atletas em seus dias de folga em passeios como partidas de golf ou compras em shopping center.

Foi isso que fiz durante exatos 44 dias na Copa da África do Sul em 2010. Nessa época eu trabalhava na Folha de S. Paulo e desembarcamos no país africano um pouco antes da seleção brasileira. Era uma equipe grande mas eu e mais alguns repórteres fomos os primeiros do jornal a chegar. Realizamos as primeiras tarefas de logística (aluguel de carros, check-in no hotel em Johannesburgo e abertura de nosso QG de imprensa no hotel da seleção) e ficamos a espera da chegada do time brasileiro. Pode-se dizer que esses primeiros dias foram os “dias de calmaria”. 

Depois que o avião da seleção tocou o solo africano, começou a correria: desembarque dos atletas, primeiros treinos, coletivas e duas viagens para amistosos: para Zimbábue e Tanzânia - esse jogo da Tanzânia quem fez a cobertura foi o outro fotógrafo do jornal, Eduardo Knapp. Éramos em dois no dia-a-dia do Brasil.

Como a seleção treinava durante o dia, eu conseguia dar uma fugida para fotografar as partidas que eram realizadas a noite em Johannesburgo. Fiz vários jogos de outras seleções. Era puxado, mas não podia perder essa chance. Se tem uma coisa que sempre penso quando estou numa cobertura dessas é: “será que voltarei a fazer esse evento um dia?”

Então, por 44 dias essa foi minha rotina: seleção brasileira durante o dia e jogos de noite, além, é claro, das viagens que o time brasileiro fazia quando jogava fora de Johannesburgo.

Enfim, após a eliminação do Brasil, tudo mudou. A maioria dos profissionais da Folha iria voltar para o Brasil, já que não existia mais tanta demanda de serviço. Meu chefe na época nos consultou a respeito e eu me ofereci para ficar até o final do Mundial, afinal de contas: ”será que voltarei a fazer esse evento um dia?”

Nossa realidade de cobertura agora era outra. Em teoria sobrava mais tempo para cobrir outros jogos e realmente “ver” a África do Sul. Nossa primeira parada foi Cape Town, onde jogariam Uruguai x Holanda, pela semi-final. O Uruguai era uma das sensações do Mundial e vinha de uma classificação dramática e inacreditável contra Gana. Além disso tinha Forlan, que ficou famoso naquela Copa pelos golaços e por liderar a seleção. Já a Holanda tinha um timaço e craques como Sneijder e Robben. Ia ser um jogaço.

Como disse antes, até o Brasil sair do campeonato tive algumas chances de fotografar outros jogos. E também assisti vários pela TV. Inclusive alguns da Holanda. Robben para mim era um jogador genial. Apesar de fazer quase sempre a mesma jogada (corte da direita para a esquerda e chute cruzado de canhota) dificilmente era contido.

Lembro que cheguei ao estádio antes do jogo e como não tinha preferência em escolher meu assento (em jogos de Copas do Mundo a FIFA dá preferência primeiro aos fotógrafos do mesmo país das seleções que estarão no jogo, depois aos profissionais do país sede e por fim aos demais fotógrafos) acabei ficando com uma cadeira na lateral do gramado, um pouco depois da linha da grande área.

Como se esperava foi um jogão. A Holanda fez 1x0, o Uruguai logo igualou e no segundo tempo a Holanda desempatou com um gol de Sneijder. Até que aos 28 do segundo tempo, Robben fez o terceiro de cabeça. O holandês testou para o gol, saiu para comemorar para o lado contrário de onde eu estava mas rapidamente deu meia-volta e veio correndo na direção em que eu e os demais fotógrafos estávamos posicionados. Por assistir muitos jogos do Robben, eu sabia que existia uma chance grande dele comemorar dando um salto e aterrisar de joelhos, dando aquela escorregada no gramado. Por isso estava durante o jogo todo com outra câmera com uma 24-70mm como segundo corpo. A grande questão nesses momentos é: quando paramos de usar a teleobjetiva e pegamos a segunda câmera? É tudo muito rápido.

Lembro que assim que ele fez a meia-volta e veio em nossa direção já abandonei a teleobjetiva 400mm e saquei a 24-70mm. Aquela imagem dele escorregando logo veio na minha mente. Por isso que acabei conseguindo essa foto abaixo, com ele ainda no ar, um pouquinho antes de “aterrisar”. 

No futebol, por trás de uma boa foto, existe sempre uma mistura de sorte, preparação e conhecimento do que ou quem você está fotografando.


Na abertura da Copa, nem tudo é futebol

Em 2014 eu fiz a cobertura da Copa do Mundo para a revista Época. Quem já cobriu uma Copa para jornal (como fiz em 2010, para a Folha de S. Paulo) sabe que é um trabalho insano, principalmente se o fotógrafo tem a missão de “colar” na seleção brasileira. São 24 horas de cobertura: treinos, coletivas, plantões no hotel, pautas sobre comportamento, entrevistas exclusivas, enfim. Me lembro que um dos meus dias mais “felizes” na cobertura da Copa da África do Sul foi quando fotografei o avião levando a seleção embora após a eliminação contra a Holanda. É triste, mas é a pura verdade. Eu já nao aguentava mais aquela rotina.

Bom, fiz toda essa introdução pra dizer que em comparação a cobertura da Copa de 2010 pela Folha, trabalhar para uma revista, no caso a revista Época, na Copa de 2014, foi um “sonho”. Como a revista é semanal, meus prazos e deadlines eram super tranquilos. Nada de pressa. Fora que eu ainda podia investir em ensaios, sugerir pautas e me preocupar basicamente em fotografar.

Meu primeiro jogo na Copa foi a partida de abertura entre Brasil x Croácia, numa quinta-feira, na Arena Corinthians. O fechamento da revista seria na sexta-feira então existia uma “pequena pressa” em entregar o material rapidamente, por isso me recordo que trabalhei “cabeado”: um cabo de rede se conectava na minha câmera e o material subia para a revista logo após eu ter fotografado. Tudo que eu tinha que fazer era selecionar as melhores imagens na câmera e liberar para o envio.

Para esse jogo eu recebi alguns briefings do André Sarmento, editor da revista (eu já conhecia o André porque havíamos trabalhado juntos na Folha, então nosso entendimento foi muito fácil durante o Mundial). Além de enviar o material o quanto antes, ele me pediu para ficar atento às tribunas de honra, já que líderes de países do mundo inteiro estariam presentes. Era um ambiente tenso e muito foi falado antes da Copa sobre a questão da segurança, principalmente porque há muitos anos um evento desse porte não era realizado na América Latina.

Acontece que o melhor momento para fotografar a tribuna de lá do campo, de onde eu estava, era quando os personagens estivessem de pé, por conta do ângulo. Quando estivessem sentados a foto não ficaria boa. E qual hora eles ficariam com certeza de pé? Durante a execução dos hinos nacionais. Logo pensei que isso seria um problema, já que o momento do hino seria também a ocasião ideal para fotografar os jogadores cantando, os técnicos mais de perto, etc.

Enfim, fui para a lateral do campo e me posicionei junto ao batalhão de fotógrafos (éramos 250 nesse dia). 

Chegando ali comecei a colocar em prática algo que sempre faço nessas grandes competições: pensar que eu era um privilegiado de estar naquele lugar, que era o sonho de todo fotógrafo esportivo do mundo fotografar uma Copa (eu já ia para minha segunda Copa do Mundo) e que já que eu tinha esse privilégio, não poderia desperdiçar esse momento e “fazer mais do mesmo”. Nesse momento, vale muito o exercício de olhar para onde ninguém está olhando. Quase sempre vale a pena.

Contextualizando um pouco, naquele período o país estava (como ainda está) muito dividido politicamente. Era o último ano da presidenta Dilma Roussef e as campanhas políticas estavam a todo vapor. Então era muito provável que essa tensão se refletisse no estádio e principalmente porque Dilma faria um pronunciamento antes da partida, declarando aberto o Mundial.

Dito e feito: a presidenta levou uma sonora vaia durante sua fala. Lembro de fazer algumas fotos do seu discurso e voltei meus olhos para o campo, onde os dois times já iam entrando para todo o protocolo de início da partida. 

Começada a execução dos hinos, fiz alguns cliques dos atletas e me lembrei do “olhe para onde ninguém está olhando”. Foi aí que virei a 400mm de novo para as tribunas. E essa cena aí abaixo ocorreu. Me lembro que não foi muito rápido: Dilma ficou um tempo fazendo esse gesto. E também por um tempo ficou olhando na minha direção. Não sei se ela achou curioso eu estar apontando a câmera para ela enquanto a maioria dos fotógrafos mirava o campo ou se simplesmente tive sorte. 

Gosto bastante dessa foto porque, depois de um tempo, revendo essa imagem, acredito que ela ficou até melhor, já que naquele ano Dilma foi reeleita numa disputa acirrada com Aécio Neves e alguns meses depois ocorreu o Golpe (ou Impeatchment, chame como bem entender) que teve grande participação de Michel Temer (abaixo na foto), seu vice-presidente.


A foto da taça da Copa

A foto da taça da Copa

Já falei por aqui que comemoração de
final de campeonato é uma das coisas mais “engessadas” e sem
graça de fotografar. Os fotógrafos são obrigados a ficar em uma
área definida pela organização do evento e acaba todo mundo
fazendo a mesma foto.

Final da Copa não é diferente. Montam
“um palquinho”, todo mundo se aboleta lá e briga pela mesma
imagem.

Pensando nisso, na premiação da final
do mundial minha ideia era me posicionar num espaço mais ao lado e
optar por uma lente diferente da maioria: a 600mm 4.0, que usei
praticamente na Copa inteira. Esse era o plano. O problema é que na
maioria das vezes, imprevistos acontecem…

Enfim, fim de jogo, França campeã,
bora fazer a foto. Antes de sair da posição que eu estava durante a
partida, guardei todos meus equipamentos nas mochilas porque a chuva,
que prometeu aparecer durante a tarde toda, agora provavelmente viria
mesmo.

Dei a volta no campo e cheguei no local
designado aos fotógrafos na lateral do gramado, bem na linha do meio
de campo, entre os dois bancos de reservas. Obviamente, todos os
espaços já estavam ocupados. Me posicionei um pouco mais à
esquerda e comecei a esperar pela entrada da taça.

Depois de alguns minutos, a chuva veio.
E veio forte, torrencial mesmo. Naquele momento me dei conta que
estava sem capa de chuva: nem pra mim, nem para o equipamento.

A chuva não dava trégua. Pensei em
sair de onde estava, tentar me abrigar em algum lugar, mas corria
risco de perder a posição. Mesmo mais afastado, já haviam alguns
fotógrafos atrás de mim. Começava a bater o desespero: equipamento
ensopado, sem nenhuma proteção. Na realidade poucos fotógrafos
estavam preparados para aquele dilúvio. Olhei para o “palquinho”
e vi fotógrafos que não conseguiriam se mexer nem se quisessem:
estavam todos encurralados.

A organização estava demorando muito
para trazer a taça, já estávamos esperando mais de 20 minutos e
nada. Em determinado momento, desencanei. Não iria mais deixar
minhas câmeras e lentes naquele aguaceiro. Corri e me abriguei em um
dos bancos de reservas. Quando a taça viesse eu correria novamente
para a posição onde estava e tentaria contar com a sorte. Além do
equipamento que estava comigo, eu também não conseguia parar de
pensar no restante que deixei do outro lado do campo: “Será que
fechei direito minha mochila? Meu computador estaria seguro? Do que
adiantaria fazer as fotos se eu não tivesse meu computador
funcionando para transmitir o material?”

Depois de mais alguns minutos,
finalmente trouxeram a Copa do Mundo. O presidente Putin também
apareceu. Lembro dele entrando porque um dos poucos fiscais da Fifa
que possuía um guarda-chuva estava bem na minha frente. Lógico que
assim que o presidente entrou no gramado o fiscal perdeu seu
guarda-chuva…

Corri para onde eu estava
anteriormente. Muita chuva ainda. “Meu lugar” já não estava
mais lá, claro. Fiquei atrás de alguns fotógrafos, mas como estava
com a 600mm, mesmo com a visão um pouco encoberta, ainda conseguia
enxergar o local aonde entregariam a taça para o capitão da França,
o goleiro Hugo Lloris.

Pronto: taça nas mãos do goleiro,
papel picado, chuva. Muito difícil fazer o foco: a lente estava
cheia de pingos de água, os papéis apareciam na frente e atrás da
taça. O autofocus da câmera ia e voltava. Eu só via mãos: com a
600mm estava bem fechado, o quadro da câmera ia da altura do peito
dos jogadores até o final dos braços, onde a taça começava a ser
passada de mãos em mãos.

Fui clicando, clicando, clicando. Nessa
hora, a experiência conta muito. Tem de tentar manter a calma,
respirar e clicar. E rezar, rs.

Fiquei ali naquela cena um minuto no
máximo. Foi o tempo dos jogadores levantarem o trofeu a aos poucos
irem iniciando a volta olímpica. Se me perguntarem o que aconteceu
depois disso, sinceramente não sei dizer. Não tenho nenhuma foto da
festa pós entrega da taça. Saí correndo para buscar minhas coisas.
Só conseguia imaginar meu computador e o resto do meu equipamento
ensopados! No caminho até chegar onde havia deixado meus pertences
vi cenas bizarras: fotógrafos que haviam deixados os notebooks e
mochilas abertos durante todo o tempo da chuva, tentando em vão
“secar” teclados, trackpads, lentes, câmeras. Desesperador.

Peguei tudo, entrei na sala de imprensa
do estádio e comecei a editar minhas fotos: meu computador estava
intacto!

Como disse, minhas fotos só tinham
mãos, chuva e papéis picados. Quando no frame havia um rosto
levantando a taça, das duas uma: ou não tinha foco ou a composição
não era boa.

Foi aí que me lembrei de um Stories
que havia gravado um pouco antes da final, em que eu dizia
basicamente que estar numa final de Copa era um privilégio tão
grande, mas tão grande, que não valia a pena estar ali e não fazer
algo diferente, arriscar. Eu já havia arriscado com o equipamento,
com o posicionamento. Por que não arriscar na edição? Nesse
momento surgiu a ideia de cropar a imagem de uma maneira que só
apareceriam as mãos dos atletas e a taça. E foi o que fiz, como
vocês podem ver na imagem abaixo.

Gostei da imagem: era diferente,
representativa e bonita plasticamente.

E no fim das contas, a chuva que tanto
havia atrapalhado, fez com que a foto ficasse até mais legal, junto
com a luz e o reflexo dos papeis picados dourados.

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